A parte que mais gostei na aplicação do LQAS foi a análise dos resultados e a sua divulgação. Em primeiro lugar, é muito motivante obter dados credíveis em relação aos projectos que estamos a implementar e comunidades em que estamos a trabalhar (no caso do projecto de Marketing Social foi o país todo), no início da intervenção é uma base que guia o futuro planeamento e implementação das actividades, e no fim da intervenção permite-nos confirmar o impacto que tivemos nos grupos-alvo do projecto.
Assim sendo, vou descrever de forma muito resumida os principais resultados da avaliação final do projecto “Marketing Social de Mosquiteiros Impregnados em São Tomé e Príncipe”.
Dados gerais: do total de entrevistados, 11% vive em cidades; 31% em vilas; 58% em communidades rurais. O número médio de elementos do agregado familiar é 5.
67% das famílias entrevistadas tem pelo menos uma criança menor de 5 anos de idade, e 9% pelo menos uma mulher grávida.
Pertença e uso de mosquiteiros impregnados pelas famílias: a nível nacional, a percentagem das famílias que tinha mosquiteiros em casa aumentou de 81% para 93% ao longo do projecto. Da mesma forma, a obtenção pelas famílias de mosquiteiros (desta vez) impregnados aumentou de 40% para 68% a nível nacional. Aqui, é importante referir a diferença entre a eficácia de uma simples rede mosquiteira em comparação com uma rede mosquiteira impregnada. E neste caso, o projecto foi um grande contribuidor para o aumento da obtenção de mosquiteiros impregnados porque se introdiziu pela primeira vez no país mosquiteiros de impregnação permanente! Estes moquiteiros podem durar até 4/5 anos e devem lavados periodicamente com água e sabão apenas.
Ainda mais importante do que apenas ter mosquiteiros em casa, o uso de mosquiteiros impregnados aumentou de 66% para 84% durante o projecto, isto apesar de no mesmo período de tempo a morbilidade de paludismo ter diminuído drasticamente no país. Isto aconteceu devido ao programa estratégico do Ministério da Saúde no combate ao paludismo: - pulverização, com várias fases, de todas as casas em STP; - introdução do novo medicamento nacional para tratamento do paludismo (artesunate + amodiaquina) depois de ter sido utilizada durante muitos anos a cloroquina; - continuação e reforço do uso de mosquiteiros impregnados.
Nesta parte dos resultados, tenho de dizer que infelizmente não obtivemos um resultado positivo para os nossos 2 grupos-alvo do projecto. Em relação às crianças com menos de 5 anos, 50% das crianças incluídas no primeiro estudo foram relatadas como tendo dormido debaixo de um mosquiteiro impregnado na noite anterior, e 55% no estudo final. Em relação às mulheres grávidas as mesmas percentagens foram 62% e 44%, respectivamente, o que significa que o uso do mosquiteiro impregnado diminuiu. No entanto, é bom dizer aqui que estes resultados não têm a segurança devida para este tipo de estudo porque apesar destes terem sido os nossos grupos-alvo do projecto, o inquérito foi feito às famílias, quer elas tivessem, ou não, crianças menores de 5 anos e/ou mulheres grávidas, ou seja, tivemos apenas uma amostra de 9 famílias com mulheres grávidas, e 70 famílias com crianças menores de 5 anos, e não 95 que seria o número mínimo para atingir o intervalo de confiança de 92,3% na utilização da metodologia LQAS.
Um dos resultados mais interessantes da avaliação final foi em relação à aquisição dos produtos especificamente introduzidos no país pelo projecto, com grande destaque para o mosquiteiro Seguro e Salvo. Verificámos que a nível nacional 52% das famílias adquiriram um mosquiteiro Seguro e Salvo!! Este resultado reflecte o número de mosquiteiros vendidos durante o projecto, e aqui quero referir duas coisas muito importantes: o número de vendas do Seguro e Salvo foi sempre aumentando ao longo do projecto, isto apesar de no último ano do mesmo, o governo ter começado uma campanha de distribuição de mosquiteiros de impregnação permanente às mulheres grávidas ( por acaso também cheguei a receber um porque estava grávida nessa altura!!); o projecto também experienciou um corte no stock destes mosquiteiros e tivemos que fazer uma encomenda que não estava prevista inicialmente, e no final todos os mosquiteiros foram vendidos. O que eu gostava de realçar aqui é o poder da influência do marketing social, quando é bem feito, na sociedade. Apesar das pessoas terem acesso a mosquiteiro grátis iguais aos do projecto, mas sem a marca, elas mantiveram-se fieis ao Seguro e Salvo, o facto de se ter um Seguro e Salvo tornou-se “moda” no país, e eu verifiquei isso pessoalmente nas comunidades, com amigos, nas lojas.
No proximo post, irei falar dos restantes resultados do projecto.