Friday, September 11, 2009

Resultados LQAS

A parte que mais gostei na aplicação do LQAS foi a análise dos resultados e a sua divulgação. Em primeiro lugar, é muito motivante obter dados credíveis em relação aos projectos que estamos a implementar e comunidades em que estamos a trabalhar (no caso do projecto de Marketing Social foi o país todo), no início da intervenção é uma base que guia o futuro planeamento e implementação das actividades, e no fim da intervenção permite-nos confirmar o impacto que tivemos nos grupos-alvo do projecto.
Assim sendo, vou descrever de forma muito resumida os principais resultados da avaliação final do projecto “Marketing Social de Mosquiteiros Impregnados em São Tomé e Príncipe”.

Dados gerais: do total de entrevistados, 11% vive em cidades; 31% em vilas; 58% em communidades rurais. O número médio de elementos do agregado familiar é 5. 
67% das famílias entrevistadas tem pelo menos uma criança menor de 5 anos de idade, e 9% pelo menos uma mulher grávida.

Pertença e uso de mosquiteiros impregnados pelas famílias: a nível nacional, a percentagem das famílias que tinha mosquiteiros em casa aumentou de 81% para 93% ao longo do projecto. Da mesma forma, a obtenção pelas famílias de mosquiteiros (desta vez) impregnados aumentou de 40% para 68% a nível nacional. Aqui, é importante referir a diferença entre a eficácia de uma simples rede mosquiteira em comparação com uma rede mosquiteira impregnada. E neste caso, o projecto foi um grande contribuidor para o aumento da obtenção de mosquiteiros impregnados porque se introdiziu pela primeira vez no país mosquiteiros de impregnação permanente! Estes moquiteiros podem durar até 4/5 anos e devem lavados periodicamente com água e sabão apenas. 
Ainda mais importante do que apenas ter mosquiteiros em casa, o uso de mosquiteiros impregnados aumentou de 66% para 84% durante o projecto, isto apesar de no mesmo período de tempo a morbilidade de paludismo ter diminuído drasticamente no país. Isto aconteceu devido ao programa estratégico do Ministério da Saúde no combate ao paludismo: - pulverização, com várias fases, de todas as casas em STP; - introdução do novo medicamento nacional para tratamento do paludismo (artesunate + amodiaquina) depois de ter sido utilizada durante muitos anos a cloroquina; - continuação e reforço do uso de mosquiteiros impregnados.  
Nesta parte dos resultados, tenho de dizer que infelizmente não obtivemos um resultado positivo para os nossos 2 grupos-alvo do projecto. Em relação às crianças com menos de 5 anos, 50% das crianças incluídas no primeiro estudo foram relatadas como tendo dormido debaixo de um mosquiteiro impregnado na noite anterior, e 55% no estudo final. Em relação às mulheres grávidas as mesmas percentagens foram 62% e 44%, respectivamente, o que significa que o uso do mosquiteiro impregnado diminuiu. No entanto, é bom dizer aqui que estes resultados não têm a segurança devida para este tipo de estudo porque apesar destes terem sido os nossos grupos-alvo do projecto, o inquérito foi feito às famílias, quer elas tivessem, ou não, crianças menores de 5 anos e/ou mulheres grávidas, ou seja, tivemos apenas uma amostra de 9 famílias com mulheres grávidas, e 70 famílias com crianças menores de 5 anos, e não 95 que seria o número mínimo para atingir o intervalo de confiança de 92,3% na utilização da metodologia LQAS.

Um dos resultados mais interessantes da avaliação final foi em relação à aquisição dos produtos especificamente introduzidos no país pelo projecto, com grande destaque para o mosquiteiro Seguro e Salvo. Verificámos que a nível nacional 52% das famílias adquiriram um mosquiteiro Seguro e Salvo!! Este resultado reflecte o número de mosquiteiros vendidos durante o projecto, e aqui quero referir duas coisas muito importantes: o número de vendas do Seguro e Salvo foi sempre aumentando ao longo do projecto, isto apesar de no último ano do mesmo, o governo ter começado uma campanha de distribuição de mosquiteiros de impregnação permanente às mulheres grávidas ( por acaso também cheguei a receber um porque estava grávida nessa altura!!); o projecto também experienciou um corte no stock destes mosquiteiros e tivemos que fazer uma encomenda que não estava prevista inicialmente, e no final todos os mosquiteiros foram vendidos. O que eu gostava de realçar aqui é o poder da influência do marketing social, quando é bem feito, na sociedade. Apesar das pessoas terem acesso a mosquiteiro grátis iguais aos do projecto, mas sem a marca, elas mantiveram-se fieis ao Seguro e Salvo, o facto de se ter um Seguro e Salvo tornou-se “moda” no país, e eu verifiquei isso pessoalmente nas comunidades, com amigos, nas lojas. 

No proximo post, irei falar dos restantes resultados do projecto.

Thursday, September 10, 2009

LQAS - Opinião

Pedi ao então director da ADRA STP, Emanuel da Costa, para dar a sua opinião sobre a pesquisa descrita nos últimos posts deste blog:

“Quando solicitado para dar uma opinião sobre a metodologia LQAS (Lot Quality Assurance Sampling), não foi necessário voltar aos documentos do Projecto Marketing Social em São Tome e Príncipe de 2006. Neste momento como director de uma ONG num outro país africano, o Malawi, a metodologia LQAS continua a ser uma ferramenta em que aposto pois junta validade da informação, a rapidez e eficiência de custo. Esta metodologia, está sendo aplicada em diversos países para diferentes objectivos (Brokker 2005; Rabarijaona 2003; Tawfik 2001; Myatt 2004; Gupte 2004; Valadez 1997) e não deve ser limitada aos programas de desenvolvimento de ONG’s em África mas igualmente usada para fortalecer os serviços públicos de Saúde, nos níveis de suporte às comunidades, como uma maneira fácil, rápida, barata de manter registos actuais do que se vai passando nas suas constituições, para que possam tomar decisões baseadas em informação actual, e exercer acções e controlos mais adequados.”


References:

Brokker S, Kabatereine NB, Myatt M, Russell Stothard J, Fenwik A (2005) Rapid assessment of Schistosoma mansoni: the validity, applicability and cost effectiveness of the Lot Quality Assurance Sampling method in Uganda. Tropical Medicine & International Health 10-7, 647-659

Rabarijaona LP, Boisier P, Ravaoalimalala VE, Jeanne I, Roux JF, Jutand MA and Salamon R (2003) Lot quality assurance sampling for screening communities hyperendemic for Schistosoma mansoni. Tropical Medicine and International Health 8-4, 322–328.

Tawfik Y, Hoque S and Siddiqi M (2001)Using lot quality assurance sampling to improve immunization coverage in Bangladesh. Bulletin of the World Health Organization 79, 501-505.

Valadez JJ, Transgrud R (1997) Assessing family planning service-delivery skills in Kenya. Studies in Family Planning 28-2, 143-151

Gupte MD, Murthy BN, Mahmood K, Meeralakshmi S, Nagaraju B and Prabhakaran R (2004) Application of lot quality assurance sampling for leprosy elimination monitoring—examination of some critical factors. International Journal of Epidemiology 33-2, 344-348.

Myatt M, Limburg H, Minassian D and Katyola D (2003) Field trial of applicability of lot quality assurance sampling survey method for rapid assessment of prevalence of active trachoma. Bulletin of the World Health Organization 81, 877-885.

Wednesday, September 9, 2009

Aplicação prática do LQAS (passos 12/12) - Resultados

Passo 12 - Apresentação dos Resultados: em ambos os momentos da avaliação os resultados foram oficialmente apresentados numa Cerimónia de Lançamento dos Resultados juntos das entidades governamentais, entidades internacionais e nacionais, e dos nossos parceiros. O relatório da avaliação final intitulado: São Tomé and Príncipe (2006): MalariaTRaC-M Study Evaluating Use of Insecticide Treated Nets and Net Retreatment Kits among Pregnant Woman and Children under Five –Second Round; pode ser encontrado em http://www.psi.org/research/smr/660-sao_tome_principe.pdf

Monday, September 7, 2009

Aplicação prática do LQAS (passos 10 e 11/12) - Relatório

Continuação dos 3 posts anteriores.

Passo 10 - Análise Estatística dos dados: Igualmente para garantir a validade dos resultados a nível nacional, a análise estatística foi feita pelo Centro National de Endemias, responsável pelo Plano Nacional de Luta Contra o Paludismo. O software usado foi TEPI-INFO 3.2.2.

Passo 11 - Elaboração de Relatório/Interpretação dos Resultados: para ambos os momentos de avaliação elaborei um relatório em colaboração directa com o PSI. Os relatórios incluíram um Sumário; Introdução ao Projecto; Métodos; Principais Resultados; Conclusões e Recomendações. O primeiro relatório foi bastante importante para o planeamento prático das actividades do projecto porque nos permitiu ter informações fundadas acerca do conhecimento da população sobre o Paludismo e Mosquiteiros Impregnados; sobre a utilização real de Mosquiteiros Impregnados e sobre a exposição das pessoas a informação sobre os temas do projecto. Estes dados tornaram-se cruciais para moldar as actividades previstas , em termos de estratégia e conteúdo. Por exemplo, no inquérito inicial (de base) verificámos que as pessoas tinham muito pouco conhecimento sobre os grupos de maior risco em relação ao Paludismo, o que levou a equipa do projecto a incluir essa informação, ou seja, que as grávidas e as crianças com menos de 5 anos de idade são os dois grupos em maior risco, em grande parte das actividade de informação, educação e comunicação (IEC). Em relação ao inquérito final, o seu grande objectivo foi verificar se os objectivos do project tinham sido atingidos, e e para isso foi feita a comparação entre os resultados do inquérito inicial e os resultados do inquérito final.  

Friday, September 4, 2009

Aplicação prática do LQAS (passos 9/12) - Validação dos Questionários

Continuação dos 3 posts anteriores.

Passo 9 - Confirmação da Validação dos Questionários: a validação dos questionários foi a parte mais burocrática, mas foi interessante porque enquanto que eu estava a confirmar a preenchimento correcto dos questionários, tentava ao mesmo tempo ver se conseguia encontrar uma linha de respostas, tanta era a curiosidade! A validação teve em conta alguns critérios: todas as partes do questionário estavam devidamente preenchidas, todas as perguntas tinham uma resposta, não havia duplicidade das respostas a perguntas que exigiam uma só resposta, os dados de identificação estavam completos. No caso de algum questionário não ser válido, era necessário obter um outro questionário válido na mesma comunidade. Esta situação não aconteceu na avaliação inicial mas aconteceu na avaliação final.

Thursday, September 3, 2009

Aplicação prática do LQAS (passos 8/12) - Nas comunidades

Continuação dos 3 posts anteriores.

Passo 8 - Calendarização e Realização de Inquéritos: tinham sido inicialmente identificados 5-7 dias para a realização dos inquéritos, parece muito, mas não é porque embora tenha sido apenas 19 inquéritos por distrito, em alguns dos distritos as comunidades são muito espalhadas e as vias de accesso estão em muito mau estado, e os entrevistadores tiveram que estar no terreno mais do que um dia em alguns distritos. As datas foram marcadas e a AI teve realizou a actividade nesses dias. Esta parte da avaliação é bastante sensível, tanto na forma como as entrevistas são aplicadas, como na forma como a informação é registada, e podem ocorrer diversos erro de avaliação. No nosso caso, as entrevistas correram com a qualidade desejada, o maior problema foi a validação de alguns dos questionários que não foram devidamente preenchidos. Na avaliação inicial (baseline) isto não aconteceu, mas na avaliação final, os enumeradores, membros da AI, tiveram que voltar às comunidades para aplicar alguns dos questionários que não foram considerados válidos, ou porque não estavam completamente preenchidos, ou porque algumas das perguntas tinham múltiplas respostas quando isso não podia acontecer.

Wednesday, September 2, 2009

Aplicação prática do LQAS (passos 6 e 7/12) - Selecção Aleatória Sistemática

Continuação dos 2 posts anteriores.

Passo 6 - Obtenção de Dados Estatíscos dos Distritos avaliados: Foram avaliados 5 dos 7 distritos, tendo sido considerado suficiente para obter conclusões a nível nacional. Para obter as listas com todas as localidades de cada distrito e o respectivo número de habitantes e habitações foi necessário fazer um pedido formal ao Instituto Nacional de Estatística que devido a forte parceria existente com o Ministério da Saúde e o Centro Nacional De Endemias nos facilitou os dados pretendidos. 

Passo 7 - Selecção Aleatória Sistemática de Comunidades e Casas: Depois de ter a lista de todas as localidades de um distrito e do respectivo número de habitantes, tive que calcular os totais acumulados da população do distrito, isto é numa folha Excel, fiz uma tabela com uma coluna dos nomes de cada comunidade, uma coluna com respectivo número de habitantes das comunidades, e uma terceira coluna com totais de habitantes acumulados. Depois disso, calculei o intervalo de separação (skip interval) dividindo o total da população do distrito pelo total da amostra pretendia, que foi sempre 19. A seguir, gerei um número aleatório dentro do intervalo de separação, e a primeira comunidade foi identificada tendo em conta esse número, ou seja, foi a comunidade onde o número total acumulado da população do distrito era o número aleatório. As subsequentes comunidades foram identificadas adicionando consecutivamente o intervalo de separação a partir do número aleatório. Pode parecer um pouco complicado mas é muito simples e mesmo divertido fazer!

Em São Tomé e Príncipe, na altura deste estudo, não existiam documentos com a lista de todas as famílias de uma comunidade. Por isso, para a selecção das casas entrevistadas em cada comunidade, os entrevistadores tiveram que, ao chegarem a uma comunidade, visitar o local e dividir a localidade em secções de aproximadamente 30 casas. Depois, com a ajuda de papelinhos identificadores de cada secção seleccionavam aleatóriamente uma secção, para seguidamente fazer uma lista das casas desta secção (em gráfico) e então seleccionar uma casa de forma aleatória. Para cada casa identificada, foi entrevistado o chefe de família, e se este(a) não estava respondia ao questionário o próximo adulto responsável. Se nenhum adulto estivesse em casa, os entrevistadores iriam bater na porta da casa seguinte.